9 de dezembro de 2021
Instituto Ressurgir
Textos

A VIOLÊNCIA DE GÊNERO – CONHECER PARA COMBATER

Sem dúvidas a efetivação da equidade de gênero é uma das vias indispensáveis para a evolução de uma sociedade. Dentro deste contexto, se faz mister a desconstrução de costumes e práticas que, há milênios, dão suporte a uma suposta supremacia masculina, resultando no desequilíbrio nas relações de convivência social, afetiva e familiar, entre homens e mulheres.
Para adentrarmos neste assunto, faz-se mister falarmos um pouco sobre os conceitos de patriarcado, machismo, feminismo, sexismo e de misoginia:
Patriarcado – é uma formação social em que, simplesmente, o poder (lato sensu) é dos homens, ou seja, trata-se de uma dominação masculina.
Sexismo – forma discriminatória, que convenciona quais usos e costumes devem ser respeitados pelas pessoas, de acordo com o sexo delas. Essas convenções vão desde o modo de se vestir e de falar, até qual deve ser o comportamento social adequado.
Machismo é a suposição de que o homem é superior a mulher, é uma ordem posta, vigente, estrutural, que viola os direitos da mulher, que lesiona e mata dezenas delas, todos os dias. Vale destacar que ele não é o contrario do feminismo.
Feminismo é a concepção de que mulheres e homens são iguais em direitos e obrigações. O feminismo não objetiva uma inversão de soberania, o movimento é uma reação ao machismo e luta para que as mulheres tenham poder sobre elas mesmas.
Misoginia é a repulsa, o desprezo ou o pavor ao feminino…vale destacar que a misoginia nada tem a ver com orientação sexual, gostar ou não de fazer sexo com mulheres não define o misógino.
O misógino é aquele que desenvolve uma aversão mórbida ao feminino, a ponto dessa aversão se materializar numa ideologia de opressão, acompanhada de violência que pode se apresentar de várias maneiras: discriminatória, física, psicológica, moral, sexual, política, sociológica, simbólica…
Apesar disso, as manifestações de misoginia não são simples de serem percebidas, o machismo e a misoginia estão diretamente relacionados com a violência (em sentido amplo) que é praticada contra a mulher, em nossa sociedade.
Podemos citar o exemplo da insistente conduta, de profissionais da mídia, em, pura e simplesmente, limitar a imagem da mulher à futilidades, ao âmbito doméstico, ou ao patamar das necessidades sexuais e de consumo do homem.
A objetificação da mulher é um fato lamentável é uma depreciação do ser feminino, que ocorre com tanta frequência e de forma tão banal, apesar de estamos em pleno século XXI. O mesmo tempo que a objetificam, “endeusam” a sua imagem enquanto menina que “amadurece” mais cedo que o menino, mulher que “faz mil coisas de uma só vez”, a mãe e a esposa que “sempre devem perdoar e tolerar tudo”, contribuem para que a mulher permaneça em uma situação de submissão e subserviência.
Na sociedade brasileira, o sexismo com base no patriarcado, ainda é muito presente em nosso dia a dia, as mulheres sofrem assédios, perseguições e importunações desde cedo e essas situações passam a ser vistas com “normais”, até por elas mesmas, já que essas condutas, muitas vezes são vistas como “naturais” desde o seio familiar e essa naturalização, se estendendo para as escolas, as ruas, para o trabalho, enfim, em quase todos os ambientes por onde passam, as mulheres são vítimas constantes de assédios sexual, moral e psicológico, muitas vezes, travestidos de elogios…
Sabe aquela mulher “tão linda” quem nem precisava ser inteligente?
Sabe aquela doutora quem “nem tem cara de advogada”?
Sabe aquela mulher que chegou para “enfeitar” o ambiente?
Sabe aquela mulher inteligente que “nem parece que é negra”? E assim por diante…
As condutas machistas e misóginas, não param por ai:
“INCONFORMADO COM O FIM DO RELACIONAMENTO…”;
“AO DESCOBRIR QUE FOI TRAIDO…”
Estas são as frases que sempre iniciam as notícias dos homicídios, qualificados pelo feminicídio (assassinatos de mulheres, em razão do gênero). O que é pretendido quando se inicia a notícia de um crime, com a justificativa para que ele aconteça?
“OS ENCONTROS AMOROSOS OCORRIAM NO QUARTO DA ENTEADA…”
Esta frase foi dita por um repórter, em determinado noticiário, ao narrar o caso de um padrasto, com 40 anos de idade, que, habitualmente, estuprava sua enteada de 12 anos de idade. O que é pretendido, quando se romantiza, uma violência tão covarde e hedionda, contra uma pessoa, completamente, vulnerável? “encontros amorosos”?
“MULHER É ENCONTRADA BEBADA, COM SINAIS DE ESTUPRO…”
O que é pretendido, quando se inicia a notícia de um crime, colocando em cheque, a conduta da vítima?? Como se ficar bêbado fosse exclusividade masculina e como se o fato de uma mulher estar bêbada, justificasse o cometimento de um crime contra ela.
Hoje, tomamos conhecimento do que ocorre no mundo, em tempo real, o volume de informação chega, por vezes, a nos confundir.
Portanto, profissionais da comunicação devem se preocupar, cada vez mais, com a qualidade dos seus serviços e em observar, a função social do seu trabalho, já que os meios de comunicação servem para informar, entreter e educar.
Assim sendo, profissionais da comunicação devem buscar abolir a linguagem sexista das suas falas e escritas, pois é preciso que percebam que a linguagem também é um instrumento de poder e que o uso sexista da língua promove a invisibilização do feminino. Então, se faz necessário marcar a existência de outro gênero, para além do masculino, pois este sozinho, não tem o poder de representar todas as pessoas.
A legislação brasileira deixou de respaldar a sujeição e a inferioridade feminina, apenas no século passado, pouquíssimo tempo, em termos de história e de mudança cultural. A palavra SORORIDADE (que é a união e aliança entre mulheres, baseada na empatia e companheirismo, sendo definido como um aspecto de dimensão ética, política e prática da luta pela igualdade entre os gêneros) ainda não é conhecido por muitas mulheres, muito menos praticada, poucas delas tem a consciência de que NÃO SOMOS INIMIGAS!
O ENCORAJAMENTO feminino é, erroneamente, visto como uma vingança, como uma tentativa de “tomar o poder”, visto como o “lugar do homem”. O EMPODERAMENTO feminino, muitas vezes, é confundido com o simples fato de mulheres terem autonomia financeira. Ocorre que, ao contrário do encorajamento, o empoderamento feminino não se dá individualmente, ele deve ser coletivo. Só será empoderamento feminino se provocar uma mudança de comportamento social, inclusive dos homens, pois se eles fazem parte do problema, obrigatoriamente, eles deverão fazer parte da solução
O empoderamento feminino se constitui numa série de ações e atitudes que levam a uma valorização do ser mulher, possibilitando assim, uma nova consciência coletiva, necessária para a superação da dependência social feminina e da dominação masculina.
Vergonhosamente, a descoberta de que os direitos humanos também são direitos da mulher e de que elas tem direito à liberdade e a ocupar os espaços públicos, bem como as esferas de poder, tanto quanto os homens, é muito recente, especialmente quando se trata de mulheres negras, que sempre estiveram e ainda estão na base da pirâmide social, são as mais passíveis de sofrer todos os tipos de violência e as que tem menos acesso a saúde, educação, moradia, trabalho, etc.
Não é fácil combater a “ordem” social, não é fácil adquirir a percepção do que é, de onde está e de que forma se apresenta o machismo, não é fácil buscar ocupar o lugar que é da mulher, por direito. Então, as mulheres que já despertaram devem ter paciência, tentar entender e buscar ajudar as outras mulheres que ainda estão submersas nas lamas podres do patriarcado.
Por fim, destacamos que a palavra de ordem é DESCONSTRUÇÃO, precisamos criar uma nova ordem, iniciando-se pela educação das nossas crianças, onde a equidade e o respeito às diferenças sejam princípios basilares. Devemos remover o sexismo dos nossos lares, das nossas escolas, da nossa sociedade… enfim, das nossas vidas, pois ele já nos causou danos demais.
A parceria entre mulheres e homens é imprescindível na construção de um mundo melhor para se viver. A luta pela equidade de gênero é uma luta da humanidade, que tem a mulher como protagonista.
Valdilene Oliveira Martins
Presidente da Comissão de Direitos Humanos do Instituto RESSURGIR